Israel acusado de usar fósforo branco em ataque no sul do Líbano

Ministro da Defesa israelita garante que exército respeita o direito internacional. Os Estados Unidos, fabricantes das munições, dizem estar preocupados e que vão investigar.

Israel é suspeito de ter usado munições de fósforo branco fabricadas pelos Estados Unidos num ataque levado a cabo em outubro no sul do Líbano e que feriu, pelo menos, nove pessoas, noticiou ontem o The Washington Post, que analisou fragmentos encontrados em Dhayra, uma pequena localidade libanesa. Três dos feridos tiveram de ser hospitalizados. Cabe recordar que Israel e o Hezbollah, a milícia xiita libanesa, têm estado envolvidos em intensas trocas de disparos na sequência do início da atual guerra na Faixa de Gaza, em 7 de outubro.

Esta denúncia feita pelo jornal norte-americano tem também por base relatos de moradores de Dhayra, que contaram que o ataque contra a aldeia, em 16 de outubro, durou horas e os impediu de sair de casa até ao dia seguinte, sendo que alguns se queixaram de dificuldades para respirar durante dias após o ataque. “Os serviços de emergência disseram-nos para colocar algo embebido em água no rosto, o que ajudou um pouco. Eu não conseguia ver o meu dedo na frente do meu rosto. Toda a aldeia ficou branca”, contou ao The Washington Post Uday Abu Sari, um agricultor de 29 anos.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o fósforo branco arde de forma instantânea quando entra em contato com o oxigênio e apenas pode ser utilizado pelos militares para iluminar o campo de batalha. Esta substância provoca queimaduras profundas e graves, pode inclusive corroer os ossos e a sua fumaça é prejudicial para os olhos e vias respiratórias.

Em 12 de outubro, a Human Rights Watch já tinha denunciado que “Israel usou fósforo branco em operações militares em Gaza e no Líbano, colocando os civis em risco de ferimentos graves e de longa duração”. Fotos e vídeos verificados pela Anistia Internacional e revistos também pelo The Washington Post mostram as características fitas de fumaça do fósforo branco caindo sobre Dhayra em 16 de outubro.

De acordo com o mesmo jornal, a origem norte-americana das munições foi também verificada pela Human Rights Watch e pela Anistia Internacional. E acrescenta que os mesmos códigos de fabricação também aparecem em cartuchos de fósforo branco alinhados junto à artilharia israelita na cidade de Sderot, perto da Faixa de Gaza, numa foto de 9 de outubro.

Os Estados Unidos recordaram ontem a Israel que as munições de fósforo branco que forneceu ao seu exército apenas podem ser utilizadas para iluminar o campo de batalha e não para atacar pessoas.

A mensagem de alerta foi transmitida pelo porta-voz do Conselho de Segurança da Casa Branca, John Kirby, após a divulgação da investigação do The Washington Post.

“Vimos essas informações e estamos decerto preocupados com isso. Vamos perguntar para saber um pouco mais sobre o que aconteceu”, respondeu Kirby, ao ser questionado sobre este tema, durante uma conferência de imprensa, a bordo do avião presidencial, Air Force One.

Este responsável disse ainda ser “importante recordar” que o único “uso legítimo” do fósforo branco no campo de batalha é para iluminar a zona. “Cada vez que fornecemos elementos como o fósforo branco a outro exército é com a convicção de que será utilizado para fins legítimos e cumprindo a lei”, afirmou.

Confrontado com estas acusações, o ministro da Defesa israelita, Yoav Gallant, disse apenas que o exército opera “de acordo com o Direito internacional”.

Troca de acusações na ONU

As delegações israelita e palestina na ONU acusaram-se ontem mutuamente de violar a Declaração Universal dos Direitos Humanos no conflito em curso na Faixa de Gaza, nas comemorações do 75º aniversário daquele texto fundamental.
Segundo a delegação dos Territórios Palestinos, “não há nada para celebrar” no 75º aniversário, quando “alguns Estados decidiram excluir os palestinos dos direitos do resto da humanidade”. “Nos últimos dois meses, morreram 7.000 crianças palestinas, dois milhões de pessoas estão deslocadas, famintas e aterrorizadas, numa guerra genocida e contrária à declaração” de 1948, afirmou a delegação na sua intervenção.

Já Israel, através da sua embaixadora na ONU em Genebra, Meirav Eilon Shahar, assegurou que entre as responsabilidades de Telavive em matéria de direitos humanos está “a proteção da sua população, eliminando as organizações terroristas cuja intenção é acabar com a vida”.

A embaixadora acrescentou que, na sequência do ataque de 7 de outubro do movimento islamista palestino Hamas a território israelita, se registrou um “aumento do antissemitismo”, que Israel combaterá “com uma política institucional de tolerância zero” em relação a discursos de ódio, ao incitamento à violência contra os judeus e à disseminação de notícias falsas.

Fonte: dn.pt por ana.meireles@dn.pt

Notícias Relacionadas
Continue Lendo
Rádio JovemFM